No monólogo Dragões, o ator Mateus Schimith transpõe em
si um homem solitário, aprisionado em seu próprio apartamento, onde caminha
gradativamente para a loucura.
O espetáculo principia
numa atmosfera realista, aconchegante, confidente, intimista, um convite à
descontração e identificação dos espectadores com o personagem principal. Uma
vez estabelecido esse pacto, todos os elementos do espetáculo trabalharão pouco
a pouco a serviço da desconstrução da normalidade aparente em prol de um
mergulho na subjetividade interior, por vezes assustadora, da personagem. Um
mergulho até o habitat do “Dragão”.
À primeira vista, um
ambiente noir, simples, porém charmoso, elegante, inspirado no estilo visual de
filmes da década de 40, com ampla utilização do contraste como recurso
dramático de iluminação. Predomínio de tons de cinza e poucas cores tanto no
figurino como no cenário: poltrona, vitrola, long plays, livros, cafeteira,
porcelanas e tv. Uma atraente sala de estar de uma casa aberta aos espectadores
que foram, na verdade, atraídos para uma armadilha.
À medida que os conflitos
internos da personagem são descortinados, recursos cênicos tratam de quebrar a
linearidade do padrão estabelecido. Junto com o ingressar na loucura da
personagem, seu apartamento também se transforma numa espécie de prisão, numa
gaiola que o aprisiona.
O público é convidado a
habitar esse apartamento e experimentar essa atmosfera, ora como testemunha
daquele acontecimento e agente de modificação, ora como observador ditanciado e
capaz de construir suas próprias conclusões sobre aquelas ações que presencia.
A trama desenvolve-se para um
encontro do personagem com seu próprio “Dragão de estimação”. O “Dragão”, no
caso, uma metáfora do maior desejo de sua alma, que, ao mesmo tempo, o alimenta
e consome. E é justo desse encontro que surge o clímax da peça que, a essa
altura da encenação, vale-se amplamente dos recursos cênicos para composição de
uma bela imagem simbolista para representar esse encontro.